quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Jornalista chegou a ser processado por ter publicado manifesto

Na manhã da último dia 13, a Comissão Municipal da Verdade entrevistou dois importantes jornalistas de Juiz de Fora. O primeiro entrevistado foi Renato Henrique Dias. Nascido em Juiz de Fora em 1949, tinha apenas 15 anos quando foi deflagrado o golpe militar no país em 1964. Com a impossibilidade de ter acesso à informação por questões financeiras, por não ter aparelho de rádio em casa nem como comprar jornais, Renato não tinha consciência do que de fato acontecia no país: “Apesar de estar ciente de que algo não estava bom no governo de João Goulart, não sabia que o golpe havia saído de Juiz de Fora.” Mesmo servindo ao Exército em 1968, o jornalista só compreendeu a situação do país quando começou a trabalhar no escritório da Livraria Exata, onde começou a ler artigos e ter acesso a periódicos como O Pasquim e Jornal do Brasil. A partir daí tomou consciência de que estava vivendo sob forte repressão.
Renato Henrique Dias foi julgado e absolvido
no "Julgamento dos 18"

Começou a estudar jornalismo na UFJF no início da década de 1970 e diz que o jornalista José Carlos de Lery Guimarães foi sua maior inspiração ao escolher o curso. Na faculdade, acompanhava os movimentos estudantis, mas não teve participação efetiva em diretórios acadêmicos ou partidos políticos. Iniciou seu trabalho na imprensa como estagiário na editoria policial do Diário da Tarde, impresso do grupo Diários Associados, no final dos anos 1970. Em uma manifestação para a melhoria do transporte público, Renato foi mordido por um cachorro da polícia que chegou também com a cavalaria para conter os manifestantes.

Nesse momento, os jornais já tinham mais liberdade em suas publicações, inclusive as prisões eram noticiadas. Mas haviam resquícios da mão do poder na redação e algumas reportagens eram “adiadas” pelos próprios editores. Seu grande contato com a ditadura foi em um processo que sofreu como editor de cidade por publicar uma matéria sobre o manifesto de sindicatos e movimentos estudantis que denunciava suspeitas de fraude na acusação de um professor pela Lei de Segurança Nacional. Renato diz que os jornalistas foram incluídos no processo porque estariam “desmoralizando a Justiça Militar ao publicar esse tipo de denúncia”. Ele, o editor-chefe e a repórter que apurou a matéria, além de outras 15 pessoas direta ou indiretamente envolvidas com a elaboração do manifesto, foram a julgamento em novembro de 1981, no que ficou conhecido como “Julgamento dos 18”. Ao final, todos foram absolvidos.

O jornalista tem poucas recordações do movimento pró-anistia apesar de ter sido muito forte e com enorme espaço de divulgação nos jornais. Para ele, o seu papel no período da ditadura era como o de um historiador: “A minha intenção era ser um instrumento de divulgação dos fatos, para estarem documentados os acontecimentos do período.”

Renato lembrou de como Juiz de Fora era uma cidade conservadora, o que refletia no conservadorismo dos próprios jornais e ressaltou a diferença entre o jornalismo praticado naquela época e o de hoje: “A mídia fazia a cabeça das pessoas. Hoje a força popular é muito maior e ela manipula a cabeça da mídia.”


sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Obregon diz que promotor da Justiça Militar atendia interesses da ditadura

Obregon Gonçalves ladeado por Cristina Guerra e Helena da Motta
“Aqui não se fazia Justiça, ratificava-se o interesse da Revolução.” Foi assim que o advogado Obregon Gonçalves definiu a atuação da Auditoria Militar da 4ª Região no período da ditadura militar. E os bastidores da Auditoria foram justamente o foco do depoimento do advogado na tarde desta sexta-feira (16). Mineiro de Belo Horizonte, o jurista veio a Juiz de Fora com o apoio da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) para contar à Comissão Municipal da Verdade (CMV-JF) relatos sobre o período autoritário, quando ele defendeu centenas presos políticos.  De acordo com ele, que é ex-vereador da capital mineira e autor de livros, a Auditoria era um lugar temido, já que nem sempre se acreditava que ali se faria justiça.
A relação de Obregon com a Auditoria de Juiz de Fora nos anos de repressão começou logo depois do golpe de 1964, quando ele atuou no processo dos deputados estudais Sinval de Oliveira Bambirra, José Gomes Pimenta (o Dazinho) e Clodesmidt Riani. Obregon era advogado de Sinval. “O clima na cidade era hostil e de insegurança, até mesmo para os advogados.”
“Na Auditoria Militar, havia uma pessoa que mandava, o Simeão de Faria”, destacou Obregon, que fez questão de frisar o caráter impolular do promotor perante os advogados, por conta da rigidez nos processos. “O Simeão era um cidadão de pouca cultura jurídica e tinha medo de enfrentar os advogados. Mas ele mandava.”
Segundo Obregon, o juiz Waldemar Lucas Rego de Carvalho, mais conhecido como “jacaré engomado”, costumava seguir as orientações de Simeão de Faria, o que parou de ocorrer quando Antonio de Arruda Marques assumiu o posto de juiz-auditor. “O Arruda não acatava o Simeão.” E Obregon atribui a isso a cassação e afastamento precoce deste juiz da Auditoria. “Quando vi pela televisão, pensei: mataram o homem.” Arruda não tinha morrido, mas foi afastado e, de alguma forma, Obregon estava certo que o desgosto levaria o juiz Arruda a falecer.
O advogado contou também que chegou a ser intimado e acusado por desacato, por conta de um mal entendido, precisando explicar ao Conselho de Justiça os termos jurídicos que havia utilizado para se livrar do processo. “Havia um juiz civil e três militares, que não entendiam de direito.”
Como defensor de presos políticos, Obregon recebeu muitas ameaças. Entre os casos que recordou estão a ocasião em que, logo após chegar à sede da OAB em Belo Horizonte, foi chamado pelo motorista para avisá-lo que o carro da Caixa de Assistência dos Advogados – na qual era presidente – estava pegando fogo. “Alguém de táxi jogou uma bomba no carro, e não conseguiram identificar quem foi. Mas quem sofreu mais ameaças foi a minha mulher.” Segundo ele, a esposa recebia ligações do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) ameaçando a família. “Queriam me pressionar.”

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

“Ficamos inteiramente afastados da liberdade de comunicação”, comenta o jornalista Wilson Cid em entrevista à Comissão

No dia 8 de dezembro, a Comissão Municipal da Verdade ouviu o jornalista Wilson Cid. Aos 74 anos, Wilson contou sobre sua participação no jornalismo nas décadas de 60 e 70, e comentou como era a dinâmica da repressão no período da ditadura.
Jornalista Wilson Cid relembra sobre
a primeira prisão do golpe

No momento do golpe, Wilson era redator na Rádio Sociedade e também trabalhava no jornal Diário Mercantil. Ele contou que às vésperas da queda do presidente, a sensação de que algo estava para acontecer era presente nas redações. Havia uma enorme movimentação no aeroporto da Serrinha, com várias autoridades do estado e do país.

“O primeiro preso do golpe foi o Diretor Regional dos Correios”, lembrou. No dia 31 de março de 1964, o clima na redação foi relativamente normal até as 17 horas, mas, às 19, já havia uma censura nas emissoras de rádio para não transmitir a Voz do Brasil. No dia seguinte, às 9 horas, o programa da Rádio Sociedade já estava totalmente censurado.

De acordo com o jornalista, os donos dos jornais associados, Diário Mercantil e Diário da Tarde, se colocaram a favor do golpe militar. Por isso, sofreu com duas censuras: a militar e a da própria empresa onde trabalhava. Wilson recordou que a polícia chegava com um telegrama, que deveria ser assinado pelos responsáveis, informando a censura de determinadas reportagens. No lugar do texto censurado ficavam espaços em branco ou receitas culinárias.

Pela forte repressão da época, os jornalistas da cidade não tiveram oportunidade de cobrir as prisões e torturas feitas pelo regime militar: “Ficamos inteiramente afastados da liberdade de comunicação”. Para ele, a marca mais grave deixada pela ditadura foi o medo que o jornalista tem de assumir a informação, pelo receio de sofrer com represálias. “Isso é muito constrangedor para a profissão”, lamentou.


Wilson Cid não tinha grandes militâncias partidárias, apesar de ter participado por alguns meses do MDB, o atual PMDB. O jornalista afirmou que poucas pessoas filiaram-se ao partido na época, por medo da repressão.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Clodesmidt Riani é homenageado pelo Estado brasileiro

O juiz-forano Clodesmidt Riani, ex-sindicalista e deputado estadual cassado no período da ditadura, foi homenageado na tarde desta quarta-feira (10) com o Prêmio Direitos Humanos 2014. Esta é a mais alta condecoração do Governo federal a pessoas e entidades que se destacam na defesa e promoção dos direitos humanos. A solenidade, que ocorreu no Palácio do Itamaraty, em Brasília, contou com a presença da presidente Dilma Rousseff e das ministras Ideli Salvati e Eleonora Menicucci. 

A ministra Menicucci entrega o Prêmio a Clodesmidt junto a Presidente
Com 94 anos, Riani, que estava acompanhado dos filhos Augustemira Riani e Clodsmidt Riani Filho, disse estar emocionado com a homenagem e com a presença de conterrâneos mineiros na solenidade. A jornalista Fernanda Sanglard e o militante de direitos humanos Betinho Duarte, representando as comissões da verdade de Juiz de Fora e Minas Gerais, respectivamente, acompanharam o prêmio.


A abertura da solenidade foi feita pelo também homenageado Ivan Seixas, que é coordenador da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva, de São Paulo. Durante a fala, Seixas lembrou que foi preso e torturado junto com o pai, Joaquim Alencar de Seixas, no DOI-Codi do Exército. O pai foi morto na unidade, após dias seguidos de tortura. Ele ressaltou a importância de ações de combate às violações dos direitos humanos e do trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que hoje pela manhã entregou o relatório final à Presidência da República e o disponibilizou à sociedade pela internet. Os dois atos marcaram o Dia Internacional dos Direitos Humanos.

Entre os condecorados com o prêmio também estavam a ex-militante Clara Charf, viúva de Carlos Marighella, o goleiro Mário Lúcio Duarte Costa, o Aranha, que protagonizou corajosa reação ao racismo no futebol este ano, e o educador já falecido Paulo Freire, que teve o prêmio recebido pela viúva Anita Freire. Ao todo, 22 pessoas e entidades foram agraciadas em 21 categorias. 

CNV entrega relatório final à Presidência da República

Presidente da CNV, Pedro Dallari entrega relatório final à Presidente


A Comissão Nacional da Verdade (CNV) entregou na manhã desta quarta-feira à presidente Dilma Rousseff (PT) o relatório final de atividades do colegiado. A solenidade, no Palácio do Planalto, contou com a presença de ministros e reuniu 50 convidados, além da imprensa. A presidente se emocionou ao falar sobre a importância de se resgatar as memórias da ditadura. De acordo com ela, o governo se debruçará sobre o relatório final da CNV, pois é preciso "conhecer a história para entendê-la melhor". Dilma destacou que "a verdade não significa revanchismo", fazendo clara alusão às discussões sobre a Lei de Anistia.


O coordenador da CNV, Pedro Dallari, lembrou que a comissão chega ao final dos trabalhos no Dia Internacional dos Direitos Humanos e informou que o relatório final contém mais de quatro mil páginas, divididas em três volumes, que focam prioritariamente as graves violações dos direitos humanos ocorridas no período entre as constituições de 1946 e 1988, e em especial a época da ditadura militar.

Dallari reforçou que a comissão evitou abordagem de caráter analítico e privilegiou o quadro circunstancial que envolve as violações. O coordenador afirmou que o terceiro volume do relatório final é considerado o mais importante por contar com os perfis dos 434 mortos e desaparecidos identificados até o momento. Segundo ele, o trabalho da CNV não foi o início e nem representa o fim das ações em defesa da memória desse período, fazendo referência às comissões de Anistia e de Mortos e de Mortos e Desaparecidos, que são anteriores à CNV, e também às comissões e comitês locais criados em âmbito local e regional, que continuarão atuando. "Caberá a essas instituições assim como à universidade dar continuidade às investigações", disse Dallari.

O relatório final <http://www.cnv.gov.br/index.php/outros-destaques/574-conheca-e-acesse-o-relatorio-final-da-cnv> já está disponível no site da CNV.

A presidente da República concluiu sua fala agradecendo a comissão e afirmando que "o Brasil saberá reconhecer a importância deste trabalho". Ao final da solenidade, integrantes da União Juventude Socialista (UJS) fizeram um ato em defesa da punição de torturadores. O grupo entregou às autoridades presentes um documento com a chancela de diversos grupos ligados aos movimentos sociais. O documento celebra os trabalhos da CNV, mas cobra justiça em relação às violações dos direitos humanos. Ainda na tarde desta quarta-feira, o relatório será entregue pelos integrantes da comissão aos poderes Legislativo e Judiciário.


segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Ismair Zaghetto revela como era a dinâmica da repressão nas redações

Ismair Zaghetto foi o terceiro jornalista a participar da série de entrevistas que a Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora (CMV-JF) vem realizando para tentar compreender as relações entre imprensa e ditadura. Nascido em Juiz de Fora, ele foi entrevistado no último dia 28. Dizendo ser um privilégio estar com 80 anos e ter podido acumular tamanho aprendizado, Zaghetto recorda ter vivenciado, como jornalista, momentos cruciais da história. Mas, apesar disso, ele sente saudades da vida acadêmica, quando foi professor de sociologia e filosofia.
Juiz de Fora tinha dois grandes jornais - o Diário Mercantil e o Diário da Tarde - quando ele começou a trabalhar. Eram os impressos dos Diários Associados, nos quais Zaghetto chegou a ser editor-geral. Segundo ele, os periódicos “encarnavam a tradução da cidade de Juiz de Fora”. Para Zaghetto, “o jornalismo antigamente era diferente. Hoje, formam-se comunicadores sociais”. Na sua época, os jornalistas eram professores, médicos, engenheiros, que tinham o jornalismo como hábito e escreviam amadoramente.


Ele lembra que, por conta da proibição de algumas reportagens no período da censura, os editores passaram a publicar matérias fora de contexto, como receitas de bolo. Era uma forma de denunciar a censura vivida dentro das redações. Entre os casos rememorados, está o de um amigo de redação, que acabou publicando matéria que havia sido censurada. Ao chegar ao quartel, o jornalista teve a carteira profissional rasgada pelo comandante.

"Uma farda sempre intimida", diz Ismair Zaghetto
em entrevista à CMV-JF.
De acordo com o jornalista, o mais difícil na época da ditadura militar foi justamente a figura do censor na redação. Conforme Zaghetto, esse profissional da censura era trocado periodicamente para não criar laços de amizade com os jornalistas. “De algum modo, em graus menores ou maiores, uma farda sempre intimida.” Mas a autocensura também é apontada por ele como uma consequência: “A autocensura é terrível, essa sensação (de se censurar) é terrível”.



Apesar da presença do censor nos jornais, Zaghetto destaca que não existia nenhum arquivo oficial que proibia a publicação de notícias, e o próprio jornal ficava incumbido de, cotidianamente, registrar as novas proibições. Um dos fatos curiosos citados pelo jornalista diz respeito à notícia de que o presidente Juscelino Kubitscheck havia falecido. Os censores informaram que devia ser publicada, no entanto, com “meia emoção”.

Ivanir Yazbeck conta sobre sua participação em “momentos extraordinários” da história brasileira

“Eu estava na redação quando recebi um telegrama dizendo que rumores davam conta de movimentação na cidade de Juiz de Fora, e que tropas seguiam para o Rio de Janeiro para depor o presidente João Goulart.” Foi assim que o jornalista Ivanir Yasbeck contou, no último dia 28, à Comissão Municipal da Verdade de Juiz de Fora (CMV-JF) a forma como se tornou um dos primeiros brasileiros a ser informado sobre o deslocamento das tropas do general Olympio Mourão Filho. O documento, que ele guarda até hoje, foi enviado por uma agência de notícias à redação do periódico Correio de Minas, da capital mineira, ainda no dia 31 de março de 1964, anunciando o golpe.


Yazbeck tornou-se repórter por intermédio do amigo Fernando Gabeira, militante preso e torturado por participar do sequestro do embaixador Charles Burke Elbrick, em 1969. Na época, com 21 anos, ele não tinha diploma de jornalista, como era comum nas redações. Fascinado pela área, procurou aprender mais sobre a profissão.

Há 50 anos, Yazbeck guarda o telegrama, redigido em espanhol,
 que avisava sobre o deslocamento das tropas no dia do golpe.
Entre os anos de 1962 e 1964, atuou no jornal semanal Binômio, que tinha uma pequena redação em Juiz de Fora. Mas em março de 1964 ele já trabalhava como redator no Correio de Minas. “O telegrama veio por Telex”, ele ressalta fazendo menção ao aviso do golpe. Em maio de 1964, Yazbeck foi trabalhar no Jornal do Brasil (JB), tendo sua primeira experiência profissional em um grande periódico, o que o faz considerar ter completado 50 anos de profissão em 2014.

A censura aos veículos de comunicação no Brasil começou expressivamente no ano de 1967, conforme Yazbeck. Na ocasião, um censor acompanhava o diagramador na redação, selecionando as notícias que não seriam publicadas, restringindo a tarefa dos jornalistas de informar, e o direito à informação.

O jornalista lembra que estava presente no momento da prisão de seu amigo Marcos de Castro, copidesque do Jornal do Brasil. Ele o aguardava para as costumeiras reuniões das sextas-feiras, acompanhado de outros dois amigos e companheiros de redação, João Areosa e José Trajano, quando, ao chegar na casa de Marcos, notou a presença dois agentes do Dops. Eles também estavam à espera de Marcos, que foi levado preso logo que chegou em casa.


Com saudosismo, Yazbeck confessou sonhar todas as noites com as redações de jornal e se orgulha de ter participado de “momentos extraordinários” da história do país, como a Copa do Mundo de 1990 e o Impeachment de Collor.